Amendoim na palha, o caminho para reduzir erosão e custos

* Denizart Bolonhezi


Dentre os desafios da cultura do amendoim, dois merecem destaque: os altos custos de produção e a ocorrência de erosão do solo. O custo de produção varia com a região e o nível tecnológico do produtor, mas a cada safra aumenta expressivamente, sobretudo em virtude do custo da terra e dos insumos, atingindo valores acima de R$ 20.000,00 por alqueire (400 sacas/alqueire).

De maneira geral, em termos percentuais, o gasto com defensivos no controle fitossanitário é o item que mais onera a planilha de custo e representa 25,9%, seguido pela mecanização (24,8%), sementes (19,9%), mão de obra (10,6%), diesel (9,6%) e fertilizantes (9,2%). O alto custo com a produção, associado às peculiaridades do processo de colheita, torna essa oleaginosa uma atividade de risco e que necessita cada vez mais de conhecimento técnico no planejamento e condução da lavoura.

Quanto às perdas de solo, considerando um índice relativo de erosão, o amendoim encontra-se na quarta posição, somente atrás da mandioca, feijoeiro comum e mamona. Para as condições edafoclimáticas norte-americanas, estudos conduzidos entre 1975 e 2014, considerando as regiões produtoras, sudeste e Virginia-Carolina, as perdas médias foram de 14 e 10 t/ha/ano, respectivamente. Se considerar a produtividade média de vagens, para as principais regiões produtoras norte-americanas são perdidos 5 kg de terra para cada 1,0 kg de amendoim produzido (McCarty et al., 2016).

Na figura 1, encontram-se resultados de pesquisas conduzidos durante 12 anos (entre 1947 e 1959) no IAC em Ribeirão Preto, que demonstraram perdas médias de 30,6 t/ha/ano de terra e 134 mm/ha/ano (Marques et al., 1961). A maior perda de terra ocorreu na safra de 1950/51, com valores de 191 t/ha/ano de terra e 281 mm/ha/ano de enxurrada. No referido ano, janeiro teve a maior pluviosidade (580 mm) da série histórica. Atualmente, sobretudo quando o amendoim é cultivado na reforma de canaviais, a ocorrência de erosão continua presente. Em virtude da sistematização das glebas para a colheita mecanizada da cana-de-açúcar, o dimensionamento dos terraços não é compatível com os requerimentos da lavoura de amendoim, resultando em sérios problemas, como os demonstrados na figura 02. 

É importante salientar, que no Estado de São Paulo há legislação (Lei Estadual n.o 6171, 04/06/1988) que dispõe sobre uso e conservação do solo e da água, bem como fiscalização realizada pela Defesa Agropecuária, da Secretaria de Agricultura e Abastecimento. De acordo com a legislação, as penalidades incidirão sobre os autores, sejam eles arrendatários, parceiros, posseiros, gerentes, técnicos responsáveis ou proprietários da área. Essa informação é relevante para a cadeia produtiva do amendoim, considerando que a maioria dos produtores é arrendatária e ocupa o espaço agrícola por alguns meses, mas mesmo assim, pode ser responsabilizada. 

A adoção dos princípios da agricultura conservacionista (mínimo revolvimento do solo, máxima cobertura com resíduos, rotação de culturas e controle de tráfego) é a estratégia mais eficaz para reduzir quase que integralmente a ocorrência de erosão do solo na cultura do amendoim, bem como contribuir para substanciais reduções nos custos de produção. Esse assunto vem sendo pesquisado pelo Programa de Pesquisa de Amendoim no IAC desde o final dos anos 90, porém nas últimas quatro safras, o projeto financiado pelo CNPQ (processo n.o 315118/2018-0, Desenvolvimento Tecnológico do Amendoim em Manejos Conservacionistas de Solo na Reforma de Canaviais), Fundação AGRISUS e CASUL, avançou incluindo avaliações de desempenho do equipamento Rip Strip® (Figura 03).

Foram conduzidos seis experimentos e três áreas de validação, nas quais foram comparados o preparo convencional, o Rip Strip® e a semeadura direta sobre a palhada de cana crua (Figura 3), nas quais foram realizados sete dias de campo com a presença de público ao redor de 635 participantes. Considerando as nove áreas de estudo, a produtividade de vagens foi menor nos manejos conservacionistas, em média 7% e 13%, respectivamente no Rip Strip® e semeadura direta sobre palhada de cana crua.
A redução da produtividade está relacionada com falhas no estande inicial de plantas, bem como efeitos da compactação acentuada (maior resistência à penetração no solo e/ou menor oxigenação na zona de frutificação em períodos úmidos). Embora as perdas na colheita e os níveis de aflatoxina tenham sido menores no amendoim sobre palhada, o percentual de impurezas tende a ser maior. O preparo reduzido e em faixa (Rip Strip®) proporcionou diminuição da compactação na linha de semeadura e reduziu a irregularidade na emergência, favorecendo e estabelecimento inicial das plantas.

Ainda há muito para ser aperfeiçoado no manejo do amendoim sobre palhada, todavia é possível afirmar que esse é o caminho para reduzir os impactos e custos, bem como aumentar a resiliência do sistema e consequente rentabilidade do agricultor.
 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
LEPSCH, I.F.; ESPÍNDOLA, C.R.; VISCHI FILHO, O.J.; HERNANI, L.C.; SIQUEIRA, D.S. Manual para Levantamento Utilitário e Classificação de Terras no Sistema de Capacidade de Uso. 1a Edição, Viçosa, Sociedade Brasileira de Ciência do Solo, 2015, 170 p.
 
LOMBARDI NETO, F.; BELLINAZZI JUNIOR, R.; LEPSH, I.F.; OLIVEIRA, J.B.; BERTOLINI, D.; GALETI, P.A.; GRUGOWICH, M.I. Terraceamento Agrícola. Campinas: Coordenadoria de Assistência Técnica Integral, 1991, 38 p. (Boletim Técnico 206).
 
MARQUES, J.Q.A.; BERTONI, J.; BARRETO, G.B. Perdas por erosão no Estado de São Paulo. Bragantia, Campinas, v.20, n. 47, p. 1143-1182, 1961.
 
McCARTY, J.A.; RAMSEY, S.; SANDEFUR, H.N. A historical Analysis of the Environmenta Footprint of Penaut Production in the United States from 1980 to 2014. Peanut Science, 43, p. 157-167, 2016.

* Denizart Bolonhezi é Eng.o Agr.o Dr., Pesquisador Científico, Centro Avançado de Pesquisa em Cana/IAC/APTA, Bolsista do CNPQ

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