Utilização de micro-organismos na agricultura

Por: Everlon Cid Rigobelo 
 
A agricultura brasileira enfrenta diversos desafios, entre eles podemos destacar a redução do custo de produção sem que ocorram perdas de produtividade e/ou impactos ambientais. Nesse sentido, a utilização de bactérias promotoras do crescimento de plantas isoladas do solo ou do trato gastrointestinal de minhocas pode ser uma ótima estratégia a ser adotada pelos agricultores.
 
Os micro-organismos surgiram na Terra há mais de 4 bilhões de anos e foram selecionados para viver em um ambiente totalmente inóspito com poucas possibilidades de obtenção e nutrientes para a manutenção da vida celular. Diante dessas dificuldades, os micro-organismos selecionados possuíam diversas habilidades e aprenderam a viver em comunidades colocando à disposição as habilidades individuais.
 
Com o surgimento das plantas há aproximadamente 400 milhões de anos, os micro-organismos já muito adaptados às condições ambientais em que viviam, interagiram e se associaram com as plantas. Os vegetais possuem uma grande influência na fertilização dos solos através da perda de folhas do dossel das árvores e rizodeposição, processo no qual as plantas perdem açúcares e moléculas orgânicas para o solo. Essa fertilização do solo não existia antes do surgimento das plantas. Então, como foi possível as plantas recém-surgidas na Terra terem tido sucesso na colonização dos solos, extremamente pobres, em termos de fertilidade e terem se espalhado por toda a Terra? Esse sucesso ocorreu e continua ocorrendo devido à interação entre as plantas e os micro-organismos.
 
Os micro-organismos benéficos que vivem na rizosfera, local próximo das raízes ou de forma endofítica, dentro dos tecidos vegetais, sem causarem nenhum sintoma ou prejuízo, são chamados de promotores de crescimento de plantas (MPCP).
 
 Esses micro-organismos podem promover o desenvolvimento vegetal de forma direta como a síntese de fitohormônios que promovem o desenvolvimento radicular aumentando a eficiência de exploração do solo com o crescimento da absorção de nutrientes e água. Os fitohormônios produzidos pelos MPCP também promovem o aumento da parte aérea da planta e ganho de clorofila tornando-a mais eficiente com maiores taxas fotossintéticas. Outra habilidade que esses micro-organismos podem ter é a de solubilização de fósforo. O fósforo é um nutriente essencial para o desenvolvimento vegetal e participa de inúmeras moléculas como o DNA, fosfolipídios, açúcares, proteínas, etc. Os MPCP produzem ácidos orgânicos ou enzimas como a fosfatase e as fitases que solubilizam o fósforo insolúvel presente no solo tornando-o disponível para as plantas.
 
Outro elemento essencial para o desenvolvimento vegetal é o nitrogênio que também é constituinte de inúmeras moléculas importantes nas células como as proteínas. Apesar dele ser o elemento mais abundante da atmosfera, um grupo seleto de micro-organismos, entre eles os MPCP, consegue realizar a fixação desse nutriente deixando disponível para as plantas e outros seres vivos.
 
O desenvolvimento vegetal também pode ocorrer de forma indireta quando as bactérias promotoras de crescimento de plantas (BPCP) possuem um efeito de biocontrole, ou seja, combatem patógenos e doenças, promovendo de forma indireta o desenvolvimento da planta hospedeira.
 
Dentre os MPCP estão as BPCP, no qual podemos citar as bactérias endofíticas, que são aquelas que vivem não somente nas raízes das plantas, mas também no seu interior, podem ser isoladas de tecidos cuja superfície foi desinfestada, e não provocam danos visíveis às plantas. São conhecidas também como “endofíticas promotoras do crescimento de plantas”. Estes micro-organismos causam efeitos no desenvolvimento das plantas, muitas vezes positivos, e ainda contribuem como uma alternativa de cultivo com menor uso de insumos agrícolas. Bacillus, Pseudomonas, Azospirillum, Rhizobium, Serratia e Azotobacter são os gêneros mais estudados.
 
Uma bactéria que tem sido muito utilizada pelos agricultores é o Bacillus subtilis que pode ser anaeróbia, aeróbia ou facultativa. Forma endósporos fazendo com que aumente sua resistência a fatores adversos, o que torna interessante para a formulação de inoculantes comerciais pelo fato de poder ser armazenada por longos períodos e permanecer por mais tempo no solo. O uso comercial de Bacillus subtilis ajuda no biocontrole de doenças em plantas acarretando no aumento da produtividade das culturas. Quando aplicado junto às sementes ou ao solo, o B. subtilis traz efeito benéfico devido não somente ao antagonismo proporcionado aos patógenos, mas também proporcionando nutrientes, crescimento e produtividade nas plantas. As endotoxinas produzidas por B. subtilis no solo atingem o ciclo reprodutivo dos nematoides, principalmente na oviposição e eclosão de juvenis. 
 
Os resultados encontrados por nossa equipe de estudantes de mestrado e de doutorado nos experimentos realizados com as BPCP isoladas do solo ou do trato gastrointestinal de minhocas podem promover um incremento ou a manutenção da produtividade com possível redução gradual da fertilização mineral, com menores custos de produção e consequentemente um sistema de produção agrícola mais sustentável.
 
Hoje em dia o agricultor brasileiro está tendo cada vez mais acesso a essas informações e a essa tecnologia pela disponibilização de produtos biológicos por diversas empresas que atuam no mercado nacional e pela credibilidade dada a estes produtos devido a inúmeras pesquisas científicas realizadas pelas universidades e institutos de pesquisas
 
Acredito que a utilização dos MPCP pelo setor agrícola aumentará e muito e essa tecnologia fará cada vez mais parte do sistema de produção vegetal brasileiro.
 
 
*Everlon Cid Rigobelo é professor doutor no Laboratório de Microbiologia do Solo da Unesp de Jaboticabal

mais
Notícias
do setor

Recuperação Judicial será revista 19 de Junho 2019

Por: Marino GuerraDentre as diversas reformas necessárias enumeradas pelo presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, na sua [...]

ler mais

Em busca da paridade 19 de Junho 2019

Por: Marino Guerra   Durante o Ethanol Summit o representante do Ministério de Minas e Energia, Miguel Lacerda, falou sobre o investimento que a [...]

ler mais

Couro grosso 18 de Junho 2019

Por: Marino Guerra   Em seu discurso durante o Ethanol Summit, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, disse que ela e o ministro do Meio Ambiente, [...]

ler mais

Enquanto a reforma não vem 18 de Junho 2019

Por: Marino Guerra No Ethanol Summit o governador de São Paulo, João Dória, citou o lançamento do Corolla Híbrido (primeiro [...]

ler mais

Marcos Fava Neves lança livro sobre a cana no Ethanol Summit 18 de Junho 2019

O Professor da USP e da FGV Marcos Fava Neves lança em 18 de junho (terça-feira), durante o Ethanol Summit - maior evento do setor [...]

ler mais

R$ 9 bi aos canaviais 17 de Junho 2019

Por: Marino GuerraNa abertura do Etanol Summit, foi feita a cerimônia de assinatura do programa que autoriza o setor sucroenergetico a emitir [...]

ler mais

@ 2019 Agronegócios Copercana Todos os direitos reservados