Os desafios do plantio

Por: Marino Guerra


Fevereiro é época de começar o plantio da cana. Não é o mês de início, pois dependendo da época e planejamento tem usina que inicia os trabalhos ainda em novembro, tampouco o de pico, já que o bicho começa a pegar mesmo em março e abril.
Porém, esse é o período ideal para retratar o que pensam fornecedores e usinas a respeito do tema, sendo possível já ter um diagnóstico do resultado do ano anterior que servirá como base para a estratégia atual.

A experiência dos últimos doze meses, embora tenha sido pesada, principalmente em decorrência das condições climáticas, com certeza foi muito enriquecedora. Especialmente no sentido de entender melhor que tipo de cana e qual manejo serão utilizados pensando quase em um objetivo só: longevidade de soqueira.

E de tanto pensar em conseguir ter um canavial com dez cortes e média de 90 toneladas por hectare, quem está planejando-o tem um verdadeiro labirinto na cabeça no qual as saídas serão encontradas mediante escolhas corretas. E pior, não há uma cartilha para ser estudada previamente com técnicas exatas para superar o desafio.

No entanto, já é possível decifrar alguns códigos através do uso de tecnologias desenvolvidas em centros de pesquisa, mas adaptadas ao dia a dia no campo pelo produtor, pois ninguém melhor que ele conhece a realidade do ambiente de um talhão específico.

Muitas dessas questões relacionadas ao momento do plantio, dentre elas a escolha pela variedade, a preocupação com o solo, a forma como combater daninhas e pragas, a sanidade da muda e a técnica de execução, são consideradas chaves para o momento.

Por que ter um canavial longevo?
Essa resposta é simples: custo. Se pensarmos que um valor de reforma gira em torno de R$ 7 mil o hectare (segundo o Pecege), é lógico que fazer esse trabalho duas vezes ao longo de um período duplicará o investimento. Mas para não dessecar uma soqueira no seu quarto ou quinto corte e ter rendimentos expressivos nos três primeiros anos é essencial e necessário fazer um plantio bem feito.

Nesse ponto, a lição da época de plantio do ano passado (quando uma pesada seca atingiu boa parte do canavial paulista) foi importante no sentido de se evidenciar quem conseguiu formar áreas vistosas e tem tudo para dar muita cana por muitos anos.
É caso do cooperado de Ituverava, Fabiano Barbosa Oliveira, que constituiu uma impressionante área deixando evidente a vitória sobre a seca através de um planejamento seguido à risca e que teve como base a busca por muita informação técnica.

Para esse plantio de sucesso, o produtor escolheu como variedade a SP80-3280, uma cultivar que se destaca por ter soqueira boa e extremamente rigorosa para solos férteis e úmidos, quando responde com alta produção.
Considerando que o objetivo do produtor é manter esse canavial por dez anos e uma média de 100 toneladas por hectare, parece óbvia a escolha por uma cana que tenha a soqueira forte para resistir às facas das colhedoras, que nem sempre estão bem afiadas.
Quanto ao tipo do ambiente também não haveria problemas, já que ela foi plantada em um dos melhores possíveis (a propriedade está localizada na região do distrito de Aparecida do Salto, entre Ituverava e Guaíra, um pouco acima do Rio Sapucaí).
Porém, o fato dela ser muito exigente quanto à água não poderia atrapalhar os planos do produtor?

É aí que começa a aparecer a importância da tecnificação do agricultor. Para aproveitar a umidade do solo, Oliveira busca aproveitar o máximo da palhada. Sendo assim, na reforma para eliminar a soqueira, ele a desseca e entra sulcando para o plantio da soja, sem mexer a terra. Ao colher o grão realiza procedimento parecido durante a vez da cana.

O resultado já apareceu em áreas com necessário preparo de solo antes do plantio da soja, geralmente quando há problemas com compactação. A produtividade é em média 30 sacos por hectare, enquanto nas de plantio direto é cerca de 50. Essa diferença é colocada na conta da palha, fundamental para segurar água ao longo dos dois veranicos desse ciclo.

Oliveira se pauta em aspectos específicos da cana-de-açúcar como argumento agronômico para evitar o uso da grade. “As áreas sistematizadas de cana dificilmente apresentam solo compactado e também tem o fato da raiz dela ser mais profunda, fazendo com que eu não precise me preocupar com uma aração mais funda”, explica.

Um ponto que os praticantes do arado justificam para o seu uso é na incorporação do calcário.  Porém, para suprir a deficiência, Oliveira faz a aplicação superficial junto com o gesso todos os anos, ou seja, só mexe a terra em áreas que a análise de solo das camadas mais inferiores apresentar uma falta muito grande, aí é feita a incorporação.
Voltando à 3280, que esbanjava saúde, foi aplicada outra técnica de manejo que o produtor acredita ter sido importante para o sucesso. Depois de retirada a cana foi feito um ciclo de soja e após a sua colheita entrou milho safrinha e no verão seguinte outra soja, para somente em março do ano passado formar o canavial.

“Como antes havia uma cana com idade bastante avançada e ainda plantada em cima de pasto, tive muitos problemas com braquiária e colonião. Minha decisão por deixar a terra um ano sem cana foi justamente para conseguir combater de modo eficaz os bancos de sementes dessas duas daninhas”, disse Oliveira.

O plantio ocorreu no começo de março (no sulco foram  colocados micronutrientes, defensivos e adubados com MAP ou fosfato monoamônico), no quebra-lombo foi feita a aplicação de KCL (cloreto de potássio). O canavial chegou a pegar um pouco de água antes da estiagem, o suficiente para a cana brotar sem falhas e resistir bem até o final de setembro, quando vieram as águas que perduraram até o fim de novembro. Nesse período foi feita adubação foliar, fungicida e inseticida para broca (a dose foi dividida em duas aplicações). Não deu outra: a cana "estilingou".

Para se ter ideia do tamanho, em dezembro já era impossível fazer a segunda aplicação do fungicida e inseticida para broca com o Uniport - máquina que o produtor faz questão de ressaltar a importância para a sua operação de 700 hectares. “Antes eu tinha umas cinco bombas e era uma enorme dor de cabeça pois quebravam toda hora, fora o custo de logística para levar os equipamentos”, conta.

Um manejo tão específico como esse não seria estragado pelo uso de mudas sem critério, as quais ele faz em canteiro, inclusive, em certas épocas, cultivadas em área de pivô. A última foi um canteiro de 13 hectares com a 3280 que nessa safra passou a ser comercial e rendeu, no terceiro corte, cerca de 150 toneladas de cana por hectare, o que acaba com qualquer dúvida se essa variedade responde bem em ambientes favoráveis.
Diante desse portfólio de boas práticas agrícolas, Oliveira diz não ter problema com as principais pragas de solo como nematoides e sphenophorus. Para controle do primeiro caso ele faz o uso do nematicida no sulco, e conforme análise, na soqueira, faz mais uma ou duas vezes.

Sobre o sphenophorus ele diz não ter problemas. “Eu não faço praticamente nada, não tive problemas. Acho que muito disso é em decorrência da rotação que faço com grãos, é uma atitude preventiva. Além do acompanhamento de produtividade, acompanho constantemente os talhões, inclusive com drone para identificar alguma reboleira e não encontro nada”, diz.

Quando o assunto são as daninhas, ele conta que aproveita a época de soja para fazer glifosato e com isso combater bancos de sementes. Quando tem problemas mais específicos, como o leiteiro - o qual destaca como um problema atual -, faz usos pontuais e, nesse caso, aplica também o imazetapir.

No plantio aplica depois do sulco fechado sulfentrazone com clomazone e sessenta dias depois, no quebra-lombo, repete a dose acrescentando um prolongador de residual.
Lógico que todo esse conhecimento o produtor não adquiriu sozinho. Oliveira diz que troca bastante ideia com o corpo técnico da usina a qual fornece e também com o engenheiro agrônomo da filial da Copercana de Ituverava, Paulo Daniel Bighetti.
“Toda vez que precisei de assistência e atendimento, a Copercana sempre me atendeu muito bem, hoje só não compro o que a cooperativa não tem para as minhas operações”, comenta Oliveira, que atua ao lado da família também em outras culturas e na pecuária.

Meiosi, um caminho sem volta?
Se depender do planejamento agrícola da Biosev essa resposta é sim. Segundo o diretor agrícola do grupo, Carlos Daniel Berro Filho, nesse plantio 40% da área será através dessa técnica e o objetivo para o ano que vem é chegar próximo dos 100%.

Quando questionado se o cenário climático do ano passado e também do começo do atual havia afetado as linhas-mães, ele disse que o grupo iniciou o plantio do mês de maio e foi até outubro e que em nenhum local sentiu problemas consideráveis para a redobra, considerando que os dois últimos meses foram destinados estrategicamente para os melhores ambientes.

Esse sucesso se deve a estratégia de produção de mudas denominada como “viveiros satélites” e consiste no planejamento e criação de um viveiro primário pelo menos um ano e meio antes e próximo da área de reforma.
Dessa forma, nos primeiros doze meses a MPB irá crescer e atingir o tamanho ideal para formar as linhas-mães que crescerão por cerca de mais meio ano até chegar o momento da desdobra.

Em uma conta rápida (considerando que com uma linha consegue-se plantar outras oito),  através desse manejo, de uma linha de MPB, será formado um canavial com 64 linhas.
 
Berro alerta que para essa estratégia ser bem-sucedida, além de montar o viveiro próximo da área de reforma, também é preciso ter uma atenção especial a ele, como planejar a forma de irrigá-lo em caso de estiagens muito pesadas, pensar em um plano especial de prevenção a  incêndios e trabalhar para manter graus máximos de sanidade no solo.

O diretor acredita que a evolução desse projeto resultará em um grande desafio quando se pensa na produção interna de mudas, que é o de dar cada vez mais escala para derrubar o custo unitário da MPB.

Confira a reportagem completa na versão digital: https://goo.gl/8VmB9u

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