O TRIGO E O MILAGRE DA PRODUTIVIDADE

Por: Marino Guerra


Em meados da década de 80, o produtor rural João Ângelo Guidi enxergou numa região de altitude, em Uberaba (cidade onde já cultiva cana-de-açúcar, soja e milho), conhecida como Serra do Caracol, a possibilidade de desenvolver uma lavoura de trigo bem-sucedida.
 
Na época, a ideia tinha tons de loucura porque a produção brasileira era concentrada na região Sul do Brasil por ter as condições climáticas como frio e umidade ideais.
 
Sendo assim, além da temperatura garantida pela altura do local (mais de mil metros) para utilizar as variedades adaptadas ao clima gaúcho, seria preciso garantir também a umidade. Para isso, Guidi decidiu investir numa propriedade com um pivô central, a qual plantaria soja como cultura de verão e entraria com o trigo no inverno.
 
Intercalando a safrinha anualmente com o milho, ele começou o cultivo que por três ciclos (seis anos) lhe rendeu a produção de 50 sacas por hectare. Período em que, através do trabalho da Embrapa, surgiram as primeiras variedades adaptadas para o cerrado tanto na condição úmida como em sequeiro.
 
Em pouco tempo, a fazenda já produzia R$ 85 sacas/ha em média. Contudo, ainda havia um grande desafio, fundamental para a cultura deslanchar na região: os moinhos (localizados em Uberlândia, Goiânia e Belo Horizonte) classificam o trigo conforme a qualidade da farinha obtida como produto final.
 
Para se ter uma ideia, para produzir o macarrão comum é utilizado o grão de qualidade inferior em relação ao destinado para pães e bolos. Como as variedades do cerrado ainda não chegavam em qualidade alta, os moinhos acabavam valorizando a safra gaúcha, mesmo pagando uma média de mil quilômetros a mais de frete.
 
Os pesquisadores da Embrapa, junto com os primeiros agricultores - e seo Guidi estava nessa turma - não descansaram até que, cerca de quatro anos depois, conseguiram chegar às variedades que renderiam uma farinha mais nobre.
 
Hoje, no mapa de produção, as farinhas dos extremos (maior e menor) da qualidade, em sua maioria, são fornecidas pela região Sul, enquanto que as medianas vêm do cerrado, fazendo com que a indústria desenvolva um sistema de blend (mistura) conforme a destinação final.
 
Trabalhando ao lado do filho, Júnior Guidi, com o tempo os produtores conseguiram observar muitas vantagens no cultivo do trigo em relação ao milho. O primeiro é a sua palhada significativamente maior, fator importante para quem, como eles, planta a soja de modo direto.
 
Outra herança que o trigo deixa para a soja é o “canudo” (caule) que fica no campo após a colheita, o qual se enche de água durante a chuva e acaba funcionando como um gotejador natural e mantém o solo úmido, o que significa previsibilidade para o plantio de verão. “Chovendo ou não, estamos prontos para plantar no dia primeiro de outubro”, disse Júnior.
 
Os agricultores ainda apontam para o manejo da lavoura que, ao contrário do milho, exige uma adubação menor e não tem necessidade do uso de herbicidas, refletindo em custos mais atraentes e em menos riscos devido a maior resistência à geadas.
 
Contudo, depois de colhido, na hora da comercialização o trigo exige experiência e sangue frio por parte do produtor. Como o produto é uma espécie de moeda de troca entre o Brasil e outros países em acordos comerciais, a quantidade importada é enorme.
 
O problema de preço começa ao observar o lado tributário. O trigo importado é livre de ICMS, imposto que atinge os produtores brasileiros. Outra desvantagem é na época de dólar baixo, quando seu valor se torna ainda mais atraente.
 
Em cima dessa questão de comércio exterior, Guidi desenvolveu um trabalho em 2008, mostrando que é um mito afirmar que o Brasil não é autossuficiente ao observar a questão produção/consumo. “O país utiliza o trigo como moeda de troca por uma questão de balança comercial, não por falta de produção”, afirma.
 
Outro problema é o baixo número de moinhos, exigindo do produtor o desenvolvimento de estrutura para armazenagem. No caso dos Guidi, eles estão implementando silos-bolsa para vender em momentos mais favoráveis como na safra atual, onde há uma queda de produção em Goiás aliada ao dólar nas alturas, o que faz com que os moinhos desembolsem mais pela matéria-prima.
 
Atualmente, a área cultivada é de 520 hectares, sendo 340 irrigadas (divididos em três pivôs) e 180 em sequeiro. Segundo Júnior Guidi, além das vantagens agronômicas, cultivar o trigo traz outras duas recompensas: a beleza do campo e o fato de ser um alimento nobre que alimenta todos os povos.
 
Isso até o momento em que grupos de nutricionistas empoderados comecem uma cruzada ideológica e irresponsável contra o glúten, assim como estão fazendo com o açúcar.

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