Primavera traiçoeira

Por: Fernanda Clariano e Marino Guerra


A primavera começou de guarda-chuvas, a estação das flores, que iniciou no dia 23 de setembro, teve pelo menos seus primeiros 70 dias de muita água. Para se ter noção as médias de outubro foram em alguns lugares acima do dobro das normais climáticas para o período.

No Centro de Cana do IAC Ribeirão Preto, por exemplo, choveu 378 mm contra 123 mm de média histórica. Para se ter ideia do acumulado, se somar a quantidade de precipitação dos últimos três anos (76 mm em 2015, 99 mm em 2016 e 93 mm em 2017) não se chega na quantidade de água que caiu em 2018.

Entrou o mês de novembro e a chuva não parou. Segundo informações do consultor técnico, Oswaldo Alonso, as médias (para a região de abrangência da Canaoeste) foram de 306 mm, 120 mm acima da média histórica. Destaque para Ituverava, município que foi castigado acima da conta pela estiagem, e Terra Roxa, que ultrapassaram as marcas dos 580 mm.

Muitos, de forma errada, colocavam o evento na conta do “El Niño”, porém segundo a climatologista do CPTEC/INPE, Juliana Anochi, o surgimento de seguidas frentes frias foi o que gerou tanta água.

Porém, se o menino travesso, que bagunça o tempo em todo planeta, não influenciou as chuvas, há bastante chance de ele ser um dos responsáveis pela estiagem de dezembro. Embora o NOAA (Centro Americano de Meteorologia e Oceanografia) ainda não tenha batido o martelo sobre a presença do fenômeno, entre os especialistas já é fato consumado que teremos a presença dele.

“Os modelos analisados indicam anomalia positiva da temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial para o trimestre de dezembro-18, janeiro-19 e fevereiro-19; coerente que temos um El Niño ativo. Sobre sua intensidade, tudo indica que deverá ser fraca”, disse a climatologista.

Diante desse diagnóstico dá para se concluir que as temperaturas serão quentes para os agricultores da região da Copercana, no entanto, Juliana aponta que o evento não influencia no volume das chuvas, mas em seu comportamento, fazendo com que com o termômetro em alta, as águas virão desordenadas e intensas.

É fato que os pelo menos 20 dias do último mês do ano com água rara já causam apreensão de prejuízos para o agricultor que tem cana, amendoim ou soja plantados, podendo ser comparada em intensidade com a tristeza da imagem feita na ponte do Rio Pardo, na estrada municipal que liga Pontal ao distrito de Cândia, no dia 17 de dezembro, onde as pedras do seu leito já surgiam na flor d´água.

Recuperação perdida
Claro que as chuvas de outubro e novembro prejudicaram o final da safra, porém era mais que sabido que o período seria antecipado este ano em decorrência da rígida seca do fechamento do verão e outono. Diante disso, a moagem que restou acabou sendo feita no veranico de dezembro, que segundo a Datagro, o volume de cana foi cerca de 20% maior em relação a igual período da safra passada.

Compartilha com essa opinião o presidente executivo da Copercana e presidente da Canaoeste, Manoel Carlos de Azevedo Ortolan, que aponta para mais um problema que devem apresentar os canaviais de final de safra, “o ATR é diretamente influenciado pela umidade e com o excesso de chuvas, esse valor cai bastante”

A chuvarada também exige a atenção dos produtores de cana em outro quesito, como ressalta o cooperado de Sertãozinho, Paulo José Bis Meloni, “por ter começado um pouco mais cedo, as chuvas também favoreceram o início do ataque das pragas, adiantando o ciclo delas e aumentando a população em campo, estando mais severo o ataque este ano do que o período passado”.

Ainda sobre esse assunto, o cooperado de Pontal, Washington Pedro Soares Júnior, vê que a estiagem de início de dezembro foi benéfica, “nessa janela conseguimos fechar a área total na aplicação de inseticida para combater a cigarrinha”.

Sobre as chuvas de outubro e novembro ele mostrou em seu próprio canavial que as soqueiras colhidas no meio de safra responderam bem, se desenvolvendo em um bom ritmo e compara com alguns talhões com cana planta, aonde ficam nítidas as consequências da seca, “eu não cheguei a ter problemas de falhas com o plantio deste ano, pois fiz logo no começo de março, pegando um pouco de água, diferente de quem plantou no final do mês ou começo de abril, aí dá para ver muitos lugares com replantio, porém meus novos talhões não passaram imunes, estão aquém do tamanho que deveriam estar nessa época do ano e bastante irregulares”.

Para se ter noção dessa questão, o produtor fala que está pulverizando com trator normal em talhão onde só entraria com máquinas mais altas como Uniport.

A gestora técnica da Canaoeste, Alessandra Durigan, também vê que para os canaviais colhidos no meio de safra as chuvas do início da primavera foram positivas no sentido da produtividade, porém o agricultor de Pontal pondera que parte do estrago não haverá chuva que consertará. “Nessa safra estou enxergando uma perda de até 15%, e para o ano que vem a produção deverá ser cerca de 10% menor, isso analisando um cenário com condições climáticas razoáveis”.

Soja e Amendoim: plantios precoces preocupam mais
Ao contrário do mandacaru, que eternizado nos versos de Luiz Gonzaga, quando “fulora” na seca é o sinal de que a chuva vai chegar no sertão, a floração da soja na estiagem não tem nada de poético.

Isso porque a produção de flores da planta pode ser entendida como o estágio inicial da formação das vagens (a flor vira o canivete que vai se transformar na vagem), ou seja, é o período que ela demanda mais energia e nutrientes e lógico que se tiver pouca água o seu desenvolvimento será afetado.
Diante disso, pode-se dizer que São Pedro pregou uma peça nos produtores que optaram pelo grão em rotação de cultura com a cana. Pois ao seguir o raciocínio de que com chuvas vindas mais cedo é antecipado também o período de colheita, fazendo com que o canavial que será plantado corra menos risco de encarar uma eventual seca antecipada (como de 2018), no momento que virou o mês de novembro para dezembro, quando surgiu o veranico, havia muito campo de soja já em plena florada.

Cenário que o engenheiro agrônomo do Departamento Técnico da Unidade de Grãos da Copercana, Thiago Zarinello, confirma, “o plantio de soja na safra 18/19 iniciou-se mais cedo, pois tivemos volumes altos de chuva favorecendo a cultura. Quando é possível essa antecipação (respeitando vazio sanitário e época) temos uma germinação melhor das plantas, um melhor desenvolvimento e formação uniforme das lavouras. Nos primeiros 20 dias de dezembro vivemos uma realidade com baixos índices pluviométricos o que pode afetar a produção nas lavouras”.

Esse fato se reflete na preocupação do produtor de Ribeirão Preto, Frank Biagio Carneiro, que executou o seu plantio na segunda quinzena de outubro. Ele disse que se tivesse uma bola de cristal, tinha esperado para começar os trabalhos no final de novembro, pois mesmo que a soja mais nova também sinta a falta de água, o prejuízo em relação às plantas que estão na época da florada é menor.

Um ponto que chama atenção na sua lavoura são as áreas onde plantou através do sistema de plantio direto, ou seja, que não fazem rotação com cana-de-açúcar. Nessas áreas como preservaram a palhada do milho safrinha, o solo não secou, não sendo influenciada de maneira tão bruta pela estiagem de dezembro.

No amendoim a história não é tão diferente, embora a planta não tenha problema com a florada, e as chuvas recentes e uniformes foram importantes para ela fazer um bom período vegetativo com água e calor o veranico surgiu em um período delicado, como explica o também agrônomo do departamento técnico da Unidade de Grãos da Copercana, Edgard Matrangolo Junior, “as chuvas ocorreram dentro do período recomendado para o plantio, isto aliado a temperaturas acima de 30°C contribuíram para excelente germinação e formação de stand, no entanto o veranico atingiu a lavoura no período que ela começa a encher as vagens, podendo resultar em desvio na vistosa produtividade imaginada no plantio”.

Quem esperou um pouco mais para plantar não deverá ter problemas tão sérios nesse quesito, como é o caso do produtor de Pitangueiras, Ronaldo Maffeis Filho, “no meu caso plantamos um pouco mais tarde, no final de outubro, creio eu que ainda não deva absorver prejuízos muito grandes caso esse veranico pare agora (a entrevista foi realizada com ele no dia 17 de dezembro), felizmente, como constatado depois do dia 20, as chuvas voltaram a cair na região.

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