O último pôr-do-sol do ano

Por: Marino Guerra


Nesta época de mudança de ano, com a cana já entregue, brigando com a cigarrinha e a broca e esperando que as boas águas perdurem até a época de plantio, em março, eu tenho por costume reservar pelo menos duas tardes em um canto da fazenda que tem um pôr-do-sol bonito e ficar um par de horas pensando em tudo que se sucedeu.

Vem na mente a saudade das pessoas que não estão mais presentes. Têm aquelas que estão longe talvez por estupidez minha, algumas que, embora dão saudade, não abro mão da minha razão, enquanto outras eu sinto um aperto no peito e uma vontade de pedir desculpas tão grande, porém menor que o meu orgulho que teimo em carregar e tenho certeza que é o causador dessa azia que não deixa eu comer meu torresmo e tomar minha pinga sossegado.

Mas as lembranças mais doídas são dos que partiram sem dizer adeus. O tio Zé, que me ensinou a melhor maneira de selar um cavalo quando eu ainda era moleque, acabou falecendo em São Paulo, num hospital com o número maior de pacientes que toneladas de cana produzidas na sua tão amada fazenda. Será complicado engolir meus primos que praticamente o obrigaram a vender a propriedade e não lhe deixar nem a possibilidade de ficar em um ranchinho na beira do rio, alegando que lá ele teria todas as condições de ser cuidado depois que ficou viúvo, não deu outra, a amargura foi tão grande que em seis meses um câncer o corroeu.

E a morte do Zeca então, na noite do desastre jogamos bola juntos, lembro como se fosse hoje a febre que dei nele porque deixou queimar o cupim recheado que tinha falado tanto no grupo do WhatsApp que havia montado para o churrasco depois do futebol. Saiu da quadra e quatro quarteirões depois, em uma reta, sem nenhuma explicação, enfiou a caminhonete no poste. Têm coisas que não dá para entender mesmo.

Têm aqueles também que todo o ano eu lembro, e o principal deles é o meu pai, simplesmente porque foi quem me mostrou esse lugar e ensinou a manter e desenvolver o canavial que me orgulho muito em ter hoje.

Dizem que os mortos precisam ser esquecidos, pois não levantam mais. Nunca na vida vou poder concordar com isso, pois tenho certeza que as pessoas que conhecemos, boas ou ruins, nos trazem um aprendizado e a morte delas deixa esses ensinamentos muito mais vivos em nossa memória.

Para curar as feridas dos que foram, tem a alegria dos que chegaram, e este ano, toda a água que deixou de cair na lavoura foi compensada por gente boa que apareceu na minha vida. A principal delas com certeza foi a chegada da minha filha, depois de tanto lutar, de perder, conhecer a dor do luto por alguém que sequer passou do tamanho de uma semente de amendoim, e ele se repetir por diversas vezes, finalmente a mãe natureza, que sempre foi tão generosa comigo, trouxe para dentro de casa a flor mais delicada e bonita que poderia existir. Mesmo sendo preciso ter um caminhão pipa para a deixar satisfeita, tamanha a fome da criança.

Tem também o Ricão, filho de um vaqueiro de confiança de um amigo que tem um sítio em Sacramento, que “fez das tripas coração” para dar o diploma de agronomia para ele. Sabendo da educação que o menino teve, o contratei sem receios e não me arrependi. Lógico que o rapaz tem muito que aprender, mas em menos de um ano já se transformou no meu braço direito.

Lembro das coisas que aconteceram na roça, e com certeza a principal deste ano foi o fato de ter conseguido comprar uma área vizinha que estava de olho prá mais de dez anos, tudo graças a um negócio bom de consórcio de terra que o gerente da Sicoob Cocred me orientou a fazer.

Penso também nas eleições que passaram, na confiança que depositamos no Bolsonaro, na esperança de finalmente conseguirmos encaixar um país que o trabalho esteja acima da malandragem, porque pelo menos na minha visão, para esse país deslanchar de vez só falta isso.

Por fim, junto minhas mãos, abaixo a cabeça e agradeço pelo meu trabalho, pela minha saúde e dos meus, pelas coisas que não saíram como eu queria, pois com certeza elas me deram força e inteligência para entender e consertar o que deu errado. Levanto, respiro fundo e o ar que entra nos meus pulmões parece combustível para encarar mais um ano. Que venha 2019, cheio de erros e de acertos, pois assim será um ano vivo.

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