Tímido e fulgaz

Por: Marino Guerra

A primeira constatação ao observar o ranking dos maiores grupos nacionais (definidos pelo faturamento de 2016), divulgado anualmente pelo Valor, é a centralização da economia. Prova disso é quando se observa os 10 maiores, responsáveis por pouco mais de 40% da receita bruta de todo o grupo (R$ 3,98 trilhões), e onde R$ 620 bilhões foramreferente aoresultado de grupos envolvidos até os mais graduados cargos em casos de corrupção (Petrobras, J&F e Odebrecht).

Essa filosofia, que vem se arrastando pelo menos desde o início da década, teve sua ruptura em 2016, a qual graças a um trabalho sério da equipe da fazenda, aliado com resultados obtidos pela Operação Lava Jato, dá para cravar que a edição de 2018 do anuário (a qual contemplará números de 2017) apresentará o dinheiro muito mais pulverizado, e o abismos entre os grupos eficientes em relação aos dependentes será muito menor.

O agronegócio brasileiro foi representado por pouco mais de 30 grupos (vale lembrar que há corporações com operações agro, no entanto não foram considerados por não ser o negócio principal deles), com base nisso, sua receita bruta girou em torno de R$ 675 bilhões ou 16% do segmento.

Desse montante, o setor sucroenergético foi representado por 11 companhias,  considerando as que também têm ramificações em outros negócios como Raízen, Cargill e Bunge, mas não foi considerada a participação da Odebrecht no setor, devido ao seu tamanho perante o total do grupo. Com isso, a cana-de-açúcar contribuiu em 2016 com cerca de R$ 260 bilhões ou 38% do mundo agro e 6,5% do grupo dos 200 maiores.

Vale ressaltar o salto dado por algumas organizações, como o Zilor, que nem figurou no ranking anterior, ou o Santa Terezinha, que avançou 16 posições (de 190º a 174º), tanto para os citados como para todos os outros representantes do setor, com certeza o bom desempenho de 2016 se deu graças ao boom do preço do açúcar, o maior já registrado na história, e com isso fica a curiosidade para observar como será o comportamento em 2017, período de preços reais, e 2018, ano de estreia do RenovaBio.

Nova Iorque e a Cana
Quatro das 20 maiores receitas brutas do setor de comércio são sucroenergéticas, dos R$ 550 bilhões faturados pelo grupo, os canavieiros representaram quase 35%. Embora tenha mais representantes (11), o valor vendido de todas as companhias de varejo juntasainda ficou pouco mais de R$ 10 bilhões atrás.

A maior receita da categoria foi da Raízen (R$ 83 bilhões), em segundo lugar, dentro das empresas do setor, foi a Cosan (R$ 51 bilhões). Mas Raízen e Cosan não fazem parte do mesmo grupo? Para entender o que é cada companhia é necessário estudar o organograma de participações acionárias de cada uma (informação também divulgada na publicação).

O primeiro item a ser entendido é que todas as unidades sucroenergéticas do grupo fazem parte da Raízen Energia, o qual o detentor da maioria acionária é o Grupo Cosan, tendo como sócio minoritário, com frações menores, o Grupo Shell.

A Raízen Energia, em sociedade igualitária com o Grupo Shell, detém 50% da Raízen S.A., no qual o Grupo Cosan é dono da outra metade. Como é majoritário na empresa de energia e detém metade das ações da Raízen S.A., o grupo Cosan controla a operação sucroenergética do grupo.

Assim, o grupo tem outro braço, a Raízen Combustíveis, onde, também por frações,o Grupo Shell é o majoritário, tendo a Cosan como sócio. Esse lado atua no segmento de postos e distribuição de combustíveis.

E quem controla do Grupo Cosan? É a CosanLimited, holding responsável pela gestão do portfólio de ativos do grupo, onde a maior parte das ações (59,06%) é negociadana Bolsa de Nova Iorque-EUA. Ela possui 61,89% do controle acionário da Cosan, que tem 37,81% de suas ações negociadas na B3 (BM&F Bovespa). Abaixo da Cosan S.A. estão outros importantes negócios do grupo como a operação logística, de lubrificantes e as propriedades agrícolas.

Isso tudo para mostrar como o que acontece em Nova Iorque e consequentemente no mundo, pode sim refletir, e muito, na vida do produtor de cana do interior de São Paulo.

Outra organização destaque dentro de segmento de comércio foi a Copersucar, primeiro lugar na categoria rentabilidade patrimonial, ou seja, foi a empresa que conseguiu maior lucro líquido se comparado com seu patrimônio líquido.  Como a operação da empresa é baseada na parte logística e comercial, em um ano de preços especialmente generosos do açúcar, como foi 2016, era quase uma obrigação ela fechar bem, porém, fechou bem demais, com 40,6% de rentabilidade, colocando quase 10 pontos em cima da segunda colocada, a Natura, que obteve 30,9%.

Como é uma cooperativa formada por 20 empresas, nas quais juntas somam 33 unidades industriais, essa sociedade é detentora de 100% de suas ações. Em seu organograma ela aparece como dona de 100% de outras seis empresas: Copersucar North America LLC (Estados Unidos), Sugar Express Transportes, Cia Auxiliar de Armazéns Gerais, Copersucar Armazéns Gerais, Eco-Energy Global Biofuels LLC (Estados Unidos) e Copersucar Trading (Aruba). Além disso possui participações em outros cinco negócios: Alvean Sugar (Espanha) e Alvean Sugar Intermediação e Agenciamento com 50%, Uniduto Logística com 39,07%, Logum Logística com 20,93% e o CTC (Centro de Tecnologia Canavieira) com 16,93%.

A norte-americana Cargill é outra organização que produz açúcar, etanol e energia destaque no ranking dentro do segmento de comércio. Com um amplo leque de atuação em várias cadeias e também diversos elos dessas (atua desde a agricultura até o oferecimento de soluções financeiras), é complicado mensurar a importância da cana-de-açúcar dentro de tamanho universo.

Dona do 25º lugar no ranking dos maiores grupos em 2016, com receita bruta de R$ 33 bilhões, sua operação sucroenergética consiste na participação majoritária na Cevasa (Patrocínio Paulista-SP) com 62,88%; metade na SJC Bioenergia, na qual forma uma Joint Venture com o Grupo USJ (São João de Araras), que operam duas unidades em Goiás, Cachoeira Dourada e Quirinópolis.
A empresa ainda é sócia (50%) do Teag (Terminal Exportador de Açúcar do Guarujá) ao lado da Biosev que detém a outra metade da operação.

Escada para o pico do Everest
O ranking dos 200 maiores grupos deixa claro a escalada do cooperativismo de crédito brasileiro para chegar ao tamanho das grandes instituições financeiras do país. Os cinco maiores bancos juntos (Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Caixa e Santander) tiveram uma renda próxima de R$ 1 trilhão, enquanto que os dois maiores sistemas cooperativos (Sicoob e Sicredi) fecharam 2016 com pouco mais de R$ 25 bilhões, ou seja, 2,5% do bolo.

Para se ter ideia, o faturamento por mês, somente do Bradesco foi de R$ 22,5 bilhões, quase igual ao das cooperativas de crédito.
Esse cenário mostra duas coisas: o fato do dinheiro estar concentrado na mão de pouca gente dificulta demais a queda de juros reais, pode abaixar o tanto que for a Selic, se houvesse uma briga maior de mercado, o valor do dinheiro para pessoas físicas e jurídicas seria muito menor.

No entanto,essa realidade apresenta um cenário positivo ao cooperativismo, pois mais cedo ou mais tarde o governo terá que tomar uma atitude para pulverizar esse mercado, e o nível de profissionalismo e credibilidade atingidos tanto pelo Sicoob, como pelo Sicredi, os gabaritam para atender boa parte dessa demanda represada, ou seja, uma política inteligente de aumento dos atores dentro do mercado financeiro não faria o cooperativismo de crédito atingir o Pico do Everest de elevador, mas já seria construída uma útil escada para facilitar a sua escalada.

Embora ainda não conte com o apoio de políticas públicas, a crise ajudou as cooperativas de crédito crescerem. O Sicoob foi a instituição financeira que mais ampliou sua receita entre 2015 e 2016, 28,8%, dez pontos a mais que o Bradesco, e quatro pontos frente ao Sicredi, o segundo colocado. Caso mantenha a mesma performance, as cooperativas de crédito ligadas ao sistema estarão na edição de 2018 do anuário no top 10 do ranking dos grupos financeiros. Em 2017 ela ficou na 12ª colocação, com receita bruta de R$ 14 bilhões.

O Sicoob já figura entre os dez maiores em outras três categorias ranqueadas pelo anuário. Ele é o sétimo grupo financeiro com maior lucro líquido (R$ 2,4 bilhões), ocupa a mesma posição entre os maiores patrimônios líquidos (R$ 16,4 bilhões) e o décimo lugar quando se observa a rentabilidade patrimonial, 14,7% em relação ao patrimônio líquido (único quesito que está atrás do Sicredi).

O organograma de participações acionárias do Sicoob mostra a Sicoob-SP (Cooperativa Central de Crédito do Estado de São Paulo) como a detentora do maior número de ações (23,49%), em seguida aparece a Sicoob Central Crediminas (Cooperativa Central de Crédito de Minas Gerais) com 16,35%. Ainda constam no quadro de acionistas, centrais representando todos os estados da confederação e o Distrito Federal, o que permite a sua atuação em todo o território nacional, com 2.661 agências e 3,8 milhões de associados.

Ao observar a estrutura acionária da Sicredi, percebe-se uma alternativa a qual pode ajudar e muito o cooperativismo de crédito a ganhar musculatura e evoluir dentro do mercado nacional, é a presença de instituições internacionais, que no caso é o Rabobank, banco holandês com origem no cooperativismo que atua mundialmente no financiamento de empresas do setor de alimentos e agronegócio, com 23,97%; e o IFC (InternatinalFinance Corporation), membro do Banco Mundial, é a maior instituição de desenvolvimento global voltada ao setor privado nos países em desenvolvimento, com 3,15%.

A presença dessas instituições pode ajudar os sistemas cooperativistas tanto na questão de desenvolvimento de seu conhecimento de mercado, embora já tenha um nível igual às instituições comerciais, a participação de gigantes mundiais pode trazer muito ”knowhow”, e, principalmente, recursos para que elas consigam aumentar ainda mais suas linhas de crédito.

Segundo pelotão
Ao ver o grupo das principais organizações industriais no Brasil, se constata uma difícil realidade, as sucroenergéticas puro sangue (destinam sua atividade totalmente, ou quase que isso, ao setor) fazem parte do segundo pelotão nessa maratona, isso porque não há nenhuma entre as vinte maiores da categoria.

Dentre elas, a melhor colocada é o Tereos Internacional, controlador da Guarani, grupo formado por sete unidades industriais, todas presentes no interior de São Paulo (Pitangueiras, Olímpia, Guaraci, Guaíra, Colina, Severínia e Tanabi), o qual obteve uma receita líquida de R$ 10 bilhões, dando-lhe a 29ª colocação dentro do ranking industrial. A organização de origem francesa aparece na “elite” somente quando é observado o patrimônio líquido, 19ª posição com R$ 5 bilhões.
A operação de açúcar, etanol e energia ainda tem uma unidade industrial em Moçambique, além de 35% do Teapar (Terminal Portuário de Paranaguá) e 4,04% do CTC.

Vale ressaltar que o resultado da companhia não vem somente da atividade relacionada à cana-de-açúcar, o grupo ainda atua no Brasil dentro do segmento de amido e adoçante.

Na 34ª posição aparece a Biosev, braço sucroenergético da Louis Dreyfus, com receita de R$ 7 bilhões. Esse número é devido a grande capacidade de moagem (segunda maior processadora de cana do Brasil e, consequentemente, do mundo), o fato de ter sido a única dentre todas do setor a registrar prejuízo (R$ 600 milhões) e redução de seu patrimônio líquido (R$ 660 milhões), claro que gera atenção do mercado, mas é preciso ressaltar que a companhia vem em um processo de reestruturação e existe uma confiança muito grande no aparecimento de números azuis em um futuro próximo.Ocupando apenas o 63º lugar no ranking industrial, o Grupo Lincoln Junqueira (também conhecido como Alto Alegre) apresentou o maior lucro líquido dentre as organizações do setor, R$ 663 milhões, isso o credenciou a estar dentro do top 20 nesse quesito, na 11ª posição.

A companhia, com sede em Presidente Prudente-SP, e quatro unidades industriais na divisa entre os estados de São Paulo (1) e Paraná (3), também foi relacionada entre as 20 que mais cresceram no período, 16º com 9,6%. Porém foi na rentabilidade patrimonial que ela deu show, ficando entre as 10 melhores, com 30,5% do patrimônio líquido, à frente de gigantes como a Ambev.

Quatro lugares abaixo da Alto Alegre (67º), também aparece um grupo que atua no norte do Paraná, o Santa Terezinha ou Usaçúcar, com sede em Maringá, conquistou uma receita bruta de R$ 2,77 bilhões, crescendo espantosos 19,4%, a variação mais positiva dentro das sucroenergéticas, sua marca foi tão expressiva que a colocou entre as cinco que mais cresceram no período.

Tendo uma estrutura respeitável, são 11 unidades industriais, um centro de distribuição em Maringá e uma estrutura para exportação no porto de Paranaguá-PR; o destaque da sua estrutura societária é o controle exclusivo por uma holding formada pela família Meneguetti. Outro ponto curioso de sua gestão é o extremo apetite na aquisição de novas indústrias, somente nessa década, marcada pela crise, foram adquiridas cinco.

Com faturamento muito próximo aos paranaenses estão os paulistas do Grupo São Martinho, comR$ 2,71 bilhões, o que o coloca como número 69 da relação. Desempenho bastante semelhante ao do ano anterior, no ranking geral não variou de posição, mostra seu equilíbrio até mesmo em anos totalmente benéficos para o setor.

Sua distribuição acionária tem como principal detentora a LJN Participações (formada pela Luiz Ometto Participações, João Ometto Participações, com 41,21% cada e a Nelson Ometto Participações, que detêm 17,58%) com 52,25% dos papéis. Também constituem o quadro (40,17%) ações negociadas na bolsa e 6,60% pertencentes a Petrobras.

O último representante dentre os participantes da contagem do Valor é o Grupo Zilor (receita bruta de R$ 2,11 bilhões e a 74ª posição),com sede em Lençóis Paulista-SP e três unidades industriais na região. Sua estrutura acionária é dividida em oito empresas de participações diferentes, além de contar com investidores pessoas físicas, os quais juntos detêm a maior parte do bolo (48,01%).

Um grande destaque da operação da companhia é sua atuação através de uma empresa de biotecnologia que desenvolve ingredientes naturais, a partir da levedura, para a indústria alimentícia e de nutrição animal, na qual além do Brasil, trabalha fortemente nos Estados Unidos e Europa e ainda de maneira tímida na Ásia e Oceania.

Bunge e Odebrecht também possuem operações representativas dentro do mundo canavieiro, porém ficaram de fora da relação das “puro sangue”, pois possuem outras atividades.No caso da Bunge, o setor é um de três pilares onde os outros dois são operações relacionadas a alimentos e fertilizantes. Já a Odebrechtrepresenta uma parcela muito menor se comparada com a imensidão de toda a organização.

É preciso ressaltar que se tivessem a operação sucroenergética representada em um grupo, como o caso da Biosev em relação à LD Commodities, teriam grandes chances de fazer parte do ranking, pois os holandeses têm 9 unidades industriais e os baianos, que a partir de dezembro passaram a se chamar Atvos, controlam mais 8.

Retrato do futuro
É bem possível que o retrato da próxima edição do anuário publicado pelo Valor terá um desempenho menor por parte dos canavieiros em razão da volta da realidade nos preços do açúcar. Com isso as empresas mais abaixo do ranking têm grandes chances de não aparecer.

Com a perspectiva de uma safra mais focada no etanol, mas levando em consideração em um cenário onde o RenovaBio ainda deverá sofrer um pouco com sua adaptação e um possível mar revolto no humor de investidores internacionais quanto ao Brasil, devido as eleições presidenciais, principalmente em decorrência de sua nebulosidade, é bem provável que a edição de 2019 também terá a sucroenergia com uma participação tímida.

Em 2020, os grupos participantes e também novos poderão já aparecer e ganhar posições, no entanto chance de protagonismo deverá surgir a partir de 2021, isso porque o ano anterior, deverá ser o primeiro que a oferta do biocombustível conseguirá crescer exponencialmente acompanhando a explosão de demanda esperada com o RenovaBio decolando.
 
 
 
 

mais
Notícias
do setor

Preços em NY fecham mistos, Londres em queda; Cepea volta a [...] 21 de Fevereiro 2018

Os preços do açúcar fecharam mistos na bolsa de Nova York ontem (20). Os contratos para março/18, fecharam com queda de dois [...]

ler mais

Petrobras: gasolina e diesel sobem 0,91% e 1,37%, [...] 21 de Fevereiro 2018

Nesta quinta-feira (22), a Petrobras aumentará os preços dos combustíveis fósseis mais uma vez. O valor do litro da gasolina [...]

ler mais

Destaque da Revista Canavieiros: Assuntos Legais 21 de Fevereiro 2018

*Por: Juliano Bortoloti*No findar do ano de 2017, mais precisamente no dia 27 de dezembro, o Governo Federal publicou no Diário Oficial da União [...]

ler mais

Pesquisadores da FGV Energia analisam mudanças na Tarifa Branca 21 de Fevereiro 2018

Com o início de 2018, os consumidores passaram a contar com uma nova opção tarifária para o cálculo da fatura de energia [...]

ler mais

Governo editará nova MP prorrogando Funrural em 60 dias 21 de Fevereiro 2018

O governo editará nos próximos dias uma nova Medida Provisória (MP) prorrogando em 60 dias o prazo de adesão ao programa de [...]

ler mais

FS Bioenergia investirá R$ 1 bi na segunda usina de etanol de [...] 20 de Fevereiro 2018

A FS Bioenergia anunciou hoje o investimento de R$ 1 bilhão na construção de sua segunda usina de etanol feito a partir do milho em Mato [...]

ler mais

@ 2018 Agronegócios Copercana Todos os direitos reservados